DOIS PAPAS

Publicado por admin em qua, 12/25/2019 - 16:12
Quem sabe o filme possa contribuir para uma curva de aprendizado dos dois lados, para que se chegue a um ponto de equilíbrio, visando diminuir a instabilidade política que abala os alicerces da sociedade. Precisamos de paz, ela não tem fronteiras, mas não deve durar até a próxima batalha!

Num filme que consegue reunir dois atores ingleses da melhor estirpe como Anthony Hopkins e Jonathan Pryce, isso já seria premissa de sucesso numa produção que a Netflix nos brinda. A direção de Fernando Meireles que sempre nos brinda com excelentes planos permite que a sua câmera ajude a contar a história. Considerando que este filme se chama DOIS PAPAS, muita gente poderia supor tratar-se de um filme religioso, mas isso poderia não interessar a uma parcela significativa da população, pois na verdade correria o risco de uma produção tendenciosa para religião católica ou então para um dos papas. No entanto, é preciso considerar que temos algumas questões que merecem uma reflexão mais profunda até mesmo de caráter histórico. Por exemplo, antes da renúncia de Bento XVI, o último Papa que havia renunciado foi Celestino V em 1294, seu sucessor Bonifácio VIII tentou mantê-lo a seu lado. Papa Celestino empreendeu uma fuga para se juntar a sua antiga ordem, mas ele faleceu dois anos depois. Bento XVI foi considerado um Papa extremamente conservador e seu pontificado foi marcado por uma serie de escândalos e que abalaram a imagem da igreja. O cardeal argentino Bergoglio que havia perdido a eleição para Bento XVI pertencia a uma ala progressista da igreja. Até parece que a escolha de Bergoglio poderia fazer parte de uma estratégia de marketing, cujo objetivo seria de recuperar os fiéis que a igreja católica havia perdido principalmente para os evangélicos. O filme não deixa isso claro, mas pode perfeitamente ser sugerido, pois o roteiro em que pese ter sido baseado em alguns fatos reais, de outra parte se apoia muito naquilo que se convencionou chamar de uma espécie de licença artística a serviço da verdade. Bem, mas o aspecto fundamental e que torna o filme mais pertinente do que nunca, vai muito além das duas figuras papais, pois o que se passa atualmente na igreja é um retrato fiel do que ocorre na própria sociedade. Vejamos, a igreja está diante do atroz dilema de dois campos antagônicos, o progressista e o conservador, enquanto no panorama político não só do Brasil, como em muitas outras partes do planeta, esse antagonismo se repete. O filme nos possibilita estar diante de um debate entre esquerda e direita, progressista e conservador através de duas figuras que poderiam gozar de uma certa imunidade ideológica partidária por se tratar de dois representantes da igreja católica. No entanto numa sociedade que apela para o ódio em detrimento da falta de razão, de repente o embate entre Bento XVI e Francisco no filme, está muito distante do que foi uma final de Copa do Mundo do Brasil entre Alemanha e Argentina onde houve pancada da correntinha do santo pra cima. Um dos momentos inquietantes no debate entre Bento XVI e Francisco está no fato de que muitas vezes a dúvida é capaz de se agitar mesmo diante da fé mais profunda. Seria tão bom que um filme como DOIS PAPAS tivesse a capacidade de aplacar o espírito, pois é ele que supera até a própria inteligência, bem por isso muitos justificam determinadas atitudes, como tendo perdido a cabeça. Por fim como um amante da música no cinema, o melhor da trilha sonora, além da canção tema  Cuando Tenga La Tierra na voz de Mercedes Sosa ou então a antológica Bella Ciao com o insuperável Swingle Singers, está na impecável composição do guitarrista americano Bryce Dessne que ao melhor estilo do argentino Gustavo Santaolalla, nos brinda com um tema inspirador que leva o nome de Papa Francisco. Lembrando que as canções nas trilhas sonoras cumprem dois papeis, um de pontuar uma época e a outra de através das suas letras reforçar o discurso da narrativa. Um outro detalhe é que na cena em que Bento XVI toca piano, na realidade é o próprio Anthony Hopkins que além de pianista se mostrou um inspirado compositor, quando compôs a trilha sonora do seu filme Outono de Paixões de 1996. Quem sabe o filme possa contribuir para uma curva de aprendizado dos dois lados, para que se chegue a um ponto de equilíbrio, visando diminuir a instabilidade política que abala os alicerces da sociedade. Precisamos de paz, ela não tem fronteiras, mas não deve durar até a próxima batalha!