VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI

Publicado por admin em sab, 03/14/2020 - 15:15
O título do novo filme do cineasta Ken Loach se refere ao recado que é deixado por uma empresa de encomendas, quando o destinatário não é encontrado. O filme tem um roteiro assinado por Paul Laverty que nasceu em Calcutá na Índia, que é filho de pai escocês e mãe irlandesa, mas tem uma alma intercontinental.

O título do novo filme do cineasta Ken Loach se refere ao recado que é deixado por uma empresa de encomendas, quando o destinatário não é encontrado. O filme tem um roteiro assinado por Paul Laverty que nasceu em Calcutá na Índia, que é filho de pai escocês e mãe irlandesa, mas tem uma alma intercontinental. Digo isso pelo fato de que ele morou muito tempo na Nicarágua, exercendo a sua profissão de advogado, especialista em direitos humanos. Mas foi justamente essa sua experiência em 1996 que o estimulou a escrever a história de um motorista escocês que acompanha o retorno de um refugiado nicaraguense para sua terra natal, justamente no momento que explode o conflito com os sandinistas. A história rendeu o filme A Canção de Carla e foi justamente a partir desse filme que comecei a acompanhar a trajetória de Paul Laverty e do cineasta inglês Ken Loach, pois com esse filme nasce a parceria longeva. Mas o interesse pelo filme não foi propriamente pela história, mas pela trilha sonora, pois desde 1984 por ocasião do filme Companhia dos Lobos, comecei acompanhar a trajetória do compositor inglês George Fenton. Então esse trio talentoso formado por Paul Laverty, Ken Loach e George Fenton continua ativo e profundamente unido. Voltando ao filme VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI, a história nasce de uma das pesquisas que Laverty fez a partir de um encontro com motoristas que trabalhavam para uma empresa de entregas de encomendas. Para evidenciar o drama do personagem Ricky ( Kris Hitchen) , ele enfrenta a precariedade de um emprego de motorista de van que consome seis dias por semana, catorze horas de jornada diária, sendo que os motoristas carregam uma garrafa plástica para urinar, pois nem para isso há intervalo. A mulher do motorista Abby (Debbie Honeywood) é cuidadora de idosos, teve que vender seu carro, para que o marido desse de entrada para adquirir a van. Em contrapartida, ela vai para o transporte público e quando chega em casa, o tempo é suficiente apenas para dar um boa noite, para o marido. Imagine quantos Rickys temos hoje, principalmente depois de uma reforma trabalhista e o processo chamado de uberização, onde os trabalhadores se transformaram nos dentes de uma roda da economia que não pode parar. Por isso a pressão no trabalho acaba massacrando muitas famílias, cada uma com um drama diferente. O grande mérito do roteirista Paul Laverty está em saber ouvir as histórias de fatos reais e depois conta-las de forma a permitir que as pessoas possam estar em lugares que nunca imaginaram estar.