E O VENTO LEVOU (1939)

Publicado por admin em seg, 10/02/2017 - 10:29
FILME : E O VENTO LEVOU trilha sonora de  Max Steiner.

Em plena Guerra Civil Americana, com fortunas e famílias destruídas, um aventureiro e uma jovem que foi duramente atingida pela guerra se envolvem numa relação de amor e ódio. Este é o enredo de E O VENTO LEVOU, uma das maiores produções cinematográficas que alcançou um estrondoso sucesso. No elenco as presenças de Clark Gable, Vivien Leigh e Olivia de Havilland, com a direção de Victor Fleming. O filme ganhou 8 Óscares, mas surpreendentemente não levou o de melhor música, composta pelo austríaco Max Steiner. Tal fato acabou sendo considerado como uma das maiores injustiças praticadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

 A trilha sonora do filme E O VENTO LEVOU teve três gravações diferentes.  A primeira é de 1939, reeditada em CD em 1983, numa versão mono com a orquestra regida pelo próprio autor Max Steiner. O tema principal foi aquele que mais marcou ao longo do tempo, imortalizando cenas desta produção que contagiou plateias de todo o mundo. Uma segunda gravação primorosa, com execução da Sinfônica de Londres, regida por Muir Mathieson, foi editada pela primeira vez pelo selo da Warner Bross e depois reeditada em 1990. A terceira gravação é de 1998, editada pela Sonic Images, gravação original completa da trilha sonora com a Sinfonica de Londres, regida por Muir Mathison com autorização de Max Steiner, autor da trilha.

Max Steiner produziu uma de suas mais belas páginas musicais de toda a sua gloriosa carreira em Hollywood, faltando o devido reconhecimento com prêmios para uma trilha que ganharia notoriedade e que serviu até mesmo para ilustrar inúmeros clipes produzidos na festa do Oscar.

Maximiliam Raoul Steiner nasceu em Viena, no dia 10 de maio de 1888. A importância desse nome se justificaria por dois aspectos: o primeiro é que ele foi detentor de um estilo inconfundível e que acabou sendo seguido por outros durante a fase de Ouro da Música no Cinema; o segundo diz respeito ao desenvolvimento de várias técnicas intrinsecamente relacionadas com o aspecto indutivo da música com o diálogo cinematográfico. Para se ter uma dimensão exata sobre a expressividade musical de Steiner, seria interessante um breve retrospecto da sua trajetória e formação musical. Steiner era neto de um empresário teatral e oriundo de uma família cuja atmosfera musical era uma decorrência natural, ele não demorou muito em revelar sua vocação para o gênero. Desde muito cedo, passou a demonstrar um interesse muito profundo pela música. Aos 16 anos de idade começou a estudar na Academia Imperial de Música de Viena, quando se identificou com grandes nomes da música erudita como Lizst, Wagner, Strauss e muitos outros. Em plena adolescência, demonstrava uma genialidade para a música capaz de valer-lhe uma medalha de ouro pela sua participação num concurso, no qual ele teve a oportunidade de compor a sua primeira peça musical. Foi influenciado por mestres tais como Robert Fuchs, Felix Weingartner e Gustav Mahler. Steiner morou oito anos na Inglaterra, onde se destacou como maestro, compositor e arranjador em memoráveis musicais. As principais cidades da Europa tiveram a oportunidade de aclamar o seu talento e sua criatividade. Em 1914, ele se muda para Nova Iorque e começa a trabalhar na Broadway. Além disso, Steiner continuava compondo e participando de recitais e foi assim que teve a oportunidade de conhecer George Gershwin, Victor Herbert, Jerome Kern, Florenz Ziegfeld e outros. Mas foi o produtor William Le Baron o grande descobridor de Steiner para o cinema. O seu primeiro grande sucesso aconteceu com o filme de Ernst Schoendsack KING KONG, apresentado anteriormente.

No Natal de 1929, Steiner foi convidado para comandar o departamento musical da RKO e fez os arranjos musicais para os filmes RIO RITA E DIXIANA. Em 1931, compôs a trilha sonora de CIMARRON, o primeiro western (filme de cowboy) a ganhar como o melhor filme do ano, conquistando três Óscares, O ROMANCE DE EDNA FERBER teve uma adaptação inquestionável. Dirigido com competência por Wesley Rugles, CIMARRON coloca Steiner na vanguarda de todos os compositores de trilhas sonoras de filmes que aos poucos foram ancorando no universo hollywoodiano. Para se ter uma ideia da intensidade de trabalho de Steiner, basta dizer que, de 1929 a 1936, ele cuidou da parte musical de 135 filmes, um verdadeiro recorde.

Shakespeare dizia que o

homem que não traz música dentro de si ou que não se comove ao ouvir os doces sons foi talhado para as traições, os enganos e os sonhos. Os movimentos de sua mente são pesados como a morte. Já suas feições são escuras como o inferno. Que não se confie em tal homem.

 Esse trecho reflete o oposto de Max Steiner que tinha música em todas as suas atitudes, com sua mente sempre povoada de acordes, os quais uma vez executados ensejavam as mais belas páginas musicais. Dentre os seus trabalhos, Steiner dirigiu com a dupla Fred Astaire e Ginger Rodgers a trilha sonora dos filmes ROBERTA, PICOLINO, VOANDO PARA O RIO, ALEGRE DIVORCIADA, NAS ÁGUAS DA ESQUADRA e outros.

Em 1936, o compositor deixa o departamento musical da RKO e juntamente com David Selznick forma uma nova companhia que foi a responsável pelo sucesso dos filmes O JARDIM DE ALÁ e NASCE UMA ESTRELA. Depois a dupla acabou indo para a Warner Bros com uma parceria que renderia mais três filmes. Juntos eles continuaram trabalhando até o instante em que surgiu E O VENTO LEVOU.

A década de 1930 pode ser considerada como uma das mais ricas para a música no cinema, já que importantes nomes surgiram nesse período, por exemplo, Alfred Newman, Adolf Deutsch, Roy Webb, Victor Young, Bronislau Kaper, Frederick Hollander e muitos outros. Max Steiner ganhou notoriedade e respeito e até se dava ao luxo de ler o roteiro do filme e depois devolvê-lo juntamente com um “NÃO” quanto a compor a sua trilha sonora. Não foram poucas as recusas de Steiner. Sua mente era povoada de acordes, mal terminava um trabalho e já estava envolvido em outro.

 O período de gestação de uma nova trilha era relativamente curto, sentava-se ao piano e rapidamente esboçava os acordes do novo trabalho. Utilizando-se sempre de um idioma romântico para suas composições, todas elas se constituíam de uma expressividade digna de um grande mestre.

Max Steiner compôs mais de 300 trilhas, além de selecionar músicas para mais de uma centena de filmes. Ao longo de sua carreira de compositor de trilhas, obteve 20 indicações para concorrer ao Óscar e ganhou 3 estatuetas.

 Em seu funeral no dia 30 de Dezembro de 1971, o compositor David Raksin afirmou: “Max foi um homem que compreendia e tratava de seu metier como poucos homens tem feito. Ele revirou o corpo de uma obra a ponto de atingir um nível de lirismo e beleza, grandeza, versatilidade que o consagrou no mundo todo”.