UM CORPO QUE CAI (1958)

Publicado por admin em seg, 10/02/2017 - 12:03
Trilha sonora original do filme Um Corpo Que Cai composta por Bernad Herrmann

Os filmes de Alfred Hitchcock sempre estimularam intensos debates de cunho psicanalítico. Grupos de estudos sobre cinema se debruçaram ao longo do tempo sobre o traço do caráter de inúmeros personagens dos filmes do mestre do suspense. A insanidade, o dualismo de personalidade, deformação de caráter, o “Eu” do personagem, o “Ser” do autor, todas as questões dignas de uma investigação psicanalítica.

UM CORPO QUE CAI, filme baseado no romance de Boileau-Narcejac, cujo título é ENTRE OS MORTOS, é um filme metafórico, que mostra o abismo que muitas vezes esconde certas evidências. Nos momentos iniciais do filme, há uma perseguição policial em pleno telhado, culminando com uma quase queda do investigador Ferguson (James Setwart) que fica pendurado numa calha. Um policial tenta resgatá-lo, mas se desequilibra caindo, enquanto que Ferguson, ao olhar para o chão, sente uma vertigem que irá afastá-lo definitivamente da polícia. Esta cena inicial é marcada de forma pujante pela música vertiginosa de Bernard Herrmann que provoca um misto de inquietação, suspense num ritmo frenético promovido por uma fusão de cordas e metais.

A personagem Madelene (Kim Novak) tem a sensação de estar num corredor comprido, formado por espelhos que mostram fragmentos pendurados, como de um quarto vazio e uma cova aberta a espera do corpo, além de uma torre de uma igreja de onde deve ser projetado um corpo. A música de Herrmann, que serve para pontuar esse momento, tem a capacidade de fazer transparecer o sentimento que toma conta daquela mente atormentada.

Da mesma forma que na praia, na cena em que o personagem Scottie acolhe Madelene em seus braços para protegê-la, ela pede para que ele não a abandone. O beijo é o selo de uma paixão que aflora estimulada pela música apaixonante de Herrmann.

Indiscutivelmente, a música mais envolvente, cativante e de uma capacidade melódica verdadeiramente extraordinária é aquela da “cena de amor” entre os dois personagens principais da trama. Bernard Herrmann que já havia demonstrado seu espírito romântico de forma suprema em O FANTASMA APAIXONADO, num filme de Joseph Makienwicz de 1947, consegue com a música de UM CORPO QUE CAI se superar, revelando uma capacidade dramático-musical que nos faz lembrar outros dois nomes importantes como de Richard Wagner e Giuseppe Verdi. Herrmann é capaz de criar uma atmosfera grandiosa com poucos recursos pela sua impressionante sensibilidade de captar música no ar. Fez trilhas para seriados de western para TV “Have Gun”/ “Will Travel”, ”The Western Suíte”.