OS DEZ MANDAMENTOS (1956)

Publicado por admin em seg, 10/02/2017 - 11:54
Trilha sonora de Elmer Bernstein para o filme Os 10 Mandamentos

O filme OS DEZ MANDAMENTOS começa com o diretor Cecil B. De Mille fazendo a apresentação, sobretudo, em que ele se baseou, procurando enveredar por outro viés da história de um povo cujas leis divinas não eram respeitadas, já que prevalecia a lei do ditador Ramses. Um elenco de grandes estrelas encabeçado por Charlton Heston, Yul Brynner, Edward G. Robinson, Anne Baxter, Yvonne De Carlo, Vincent Price e muitos outros. Com a direção de um grande mestre Cecil B. De Mille, o filme recebeu sete indicações ao Oscar, mas só levou uma estatueta, que foi a de efeitos especiais, pela cena da abertura do Mar Vermelho. Independente da bonita fotografia, guarda-roupa, edição e efeitos especiais, o que contribuiu para marcar na história o filme OS DEZ MANDAMENTOS foi indiscutivelmente a soberba e pomposa trilha sonora composta por Elmer Bernstein.

A robustez da música de Bernstein pode ser sentida na apresentação dos créditos iniciais do filme. A chegada de Moisés ao Palácio de Ramses é outro instante da pompa e circunstância de uma música que serve para reforçar as cenas.

Utilizando de recursos melódicos para se referir ao caráter dos personagens, Bernstein fazia uma espécie de apresentação, quando da primeira aparição em cena. Foi o caso de Dathan (Edward G. Robinson) que era o feitor dos escravos, seu caráter foi melodicamente denunciado por Bernstein.

O processo da articulação e música é um dos aspectos primordiais para sustentar um clima de tensão, como evidenciado pela cena em que a escrava Yochabel (Martha Scott) engraxa uma gigantesca pedra e tem o cordão da sua vestimenta presa. Foi neste momento que os efeitos sonoros aliados a uma música articulada contribuem para dar à cena o impacto necessário. Na cena em que os maceteiros trabalham para erguer o obelisco, mais uma vez a música marcante de Bernstein contribui para dar mais força às ações de dois mil escravos erguendo aquele majestoso bloco de pedra.

Um dos momentos de grande inquietação e surpresa se dá quando Moisés adentra o palácio de Ramses e ordena que este liberte o seu povo. O Faraó no alto da sua arrogância responde então que a vida do seu povo a ele pertence. Nesse instante, Moisés atira seu cajado aos pés do Faraó e vemos então surgir uma enorme serpente. A música está tão bem colocada, que nem é percebida, dado o impacto da cena. Em outro momento, às margens do Nilo, acontece novo duelo verbal entre Ramses e Moisés, enquanto o Faraó diz que está lá para benzer as águas, novamente o cajado de Moisés entra em cena, transformando as águas em sangue. Mais uma vez a perfeita colocação da música contribui no processo articulatório entre discurso e ação.

Inúmeras variações sobre o tema principal desfilaram nas cenas de OS DEZ MANDAMENTOS. Quando a rainha carrega nos braços o filho morto do Faraó, temos então uma marcha fúnebre a caracterizar a tragédia.

 Bernstein compôs uma marcha de cunho religioso para marcar a cena de Moisés conduzindo seu povo rumo à montanha de Deus e uma marcha militar para pontuar as cenas do exército do Faraó, saindo no encalço de Moisés e os escravos que caminham pelo deserto.

Nas cenas mostrando as margens do Mar Vermelho, o povo assustado com a aproximação do exército do Faraó, com o ex-feitor Dathan desafiando Moisés, eis que é lançado pelos céus um sopro de Deus com um pilar de fogo, com objetivo de inibir os soldados. Temperando a cena uma música eletrizante de Bernstein contribui para conduzir o suspense, tornando-se emblemática.

Chega então o momento supremo do filme, com Moisés se voltando para o Mar empunhando seu cajado, no instante em que as águas se agitam sendo aberto o Mar para que a caravana de escravos possa seguir sua jornada. Uma cena épica com a música de Bernstein como se fosse uma cavalgada wagneriana.

Na cena final, Moisés passa o cajado, o manto e as tábuas dos DEZ MANDAMENTOS para Josué, retirando-se de cena, é tocada a música que Bernstein batizou de sua “Música de Saída”, uma característica que predominou durante décadas no cinema.

Elmer Bernstein regeu renomadas orquestras em memoráveis concertos, que obrigatoriamente contemplavam este seu trabalho emblemático para OS DEZ MANDAMENTOS.

 O compositor teve uma infância povoada de muita música e aos doze anos ganhou uma bolsa de estudos para frequentar a badalada Juliard School, onde estudou com Henriete Michelson, que o conduziu para a carreira de pianista e compositor. Bernstein ainda garoto já tocava para Aaron Copland que ficou tão entusiasmado com o seu estilo que o selecionou para ser aluno do conceituado Israel Citkowitz.

Bernstein descobriu seu amor pela música graças a sua família sempre muito interessada pelas artes e o encorajamento dos pais que foi decisivo para estimular sua sensibilidade criativa. A Segunda Guerra Mundial lhe proporcionou a chance de organizar música folclórica americana e compor trilhas dramáticas para o Exército e Aeronáutica em espetáculos que eram transmitidos pelo rádio. Em 1949, Bernstein foi contratado para fazer dois espetáculos para Rádio das Nações Unidas, fato que despertou a atenção de Sidney Buchman, então vice-presidente da Columbia. O Sr. Buchman lhe ofereceu a oportunidade para iniciar sua trajetória como compositor de trilhas sonoras. Sua primeira trilha para o cinema foi para o filme de David Miller O ÍDOLO DOURADO. A primeira trilha de grande densidade foi para o drama de guerra de 1955 O GIGANTE DOS MARES. Neste mesmo ano, teve sua primeira indicação ao Óscar com O HOMEM DO BRAÇO DE OURO Ao longo de 53 anos de carreira, Elmer Berstein compôs 240 trilhas sonoras entre cinema e televisão. Ele obteve 14 indicações para concorrer ao Oscar, faturando apenas uma estatueta pela trilha de POSITIVAMENTE MILLIE (1967). Na trilha sonora do filme PELOS BAIRROS DO VÍCIO Bernstein usa um estilo inteiramente jazzístico, o que salva o filme de Edward Dmytryk.