PAPICHA

Publicado por admin em dom, 05/03/2020 - 11:34
O termo Papicha para os argelinos significa bem humorada, à frente do seu tempo. A cineasta argelina Mounia Meddour se coloca na pele dessa personagem, representando a mulher que resiste diante de uma atmosfera repressora e tempos sombrios.

Este é o título do primeiro longa metragem da cineasta argelina Mounia Meddour. Tendo como pano de fundo a Guerra Civil da Argélia em 1991 com grupos radicais promovendo atentados terroristas. Para a cineasta, o foco central estava na forte repressão  imposta as mulheres por grupos religiosos com regras que atingiam principalmente os sonhos daquelas que ousavam fazer diferente das outras. Uma delas é Papicha, papel brilhantemente interpretado pela atriz Lyna Khoudri, que faturou os prêmios de melhor atriz em Berlim e Veneza, no ano passado. Papicha alimentava o sonho de ser uma Coco Chanel da Argélia e demonstrava um talento excepcional na criação e confecção de roupas, que ousavam e desafiavam a época. A universidade onde estudava, mais parecia um mosteiro de clausura, que no final, acabou cercado por um enorme muro. Mas o muro invisível é que não permitia que as mulheres pudessem deixar de usar o hijab ( a vestimenta preconizada pela doutrina islâmica) que se por um lado serviria para expressar a religiosidade, de outra parte quem resistisse ao seu uso, poderia pagar com a própria vida. A irmã de Papicha era jornalista e foi morta assim como mais de 70 profissionais de imprensa durante a guerra civil. A cineasta Mounia Meddour resolveu contar a história de Papicha, como uma espécie de contraponto a toda bateria de informações que na época surgiam sobre a Argélia,  focadas no número de vítimas produzidas pela guerra e das bombas, principalmente de ataques terroristas. O grande sonho de Papicha era de promover um desfile de modas na Universidade, para que pudesse mostrar os frutos da sua criação, nem que fosse para uma plateia formada apenas pelas colegas de classe. A resistência e determinação de Papicha, acaba se traduzindo como o grande combustível dessa narrativa. Como o sonho de Papicha ela compartilhava com suas amigas, isso poderia ser o prenúncio de que ele poderia se transformar em realidade. Papicha criava os modelos de um vestuário, cuja finalidade maior era permitir expressar através do corpo a resistência em prol da liberdade feminina.