A CASA QUE JACK CONSTRUIU

Publicado por admin em dom, 12/30/2018 - 11:09
O personagem central da história é um engenheiro que gostaria de ser arquiteto e se propõe a construir a sua casa. Mas afinal de contas, esta casa seria feita de que material?

Em seu mais recente trabalho para o cinema, o diretor dinamarquês Lars Von Trier mostra a maior aproximação cinematográfica da sua carreira com Hollywood. O filme é quase que uma mistura de Hitchcock e Tarantino, mas o tempero tem a marca registrada de Trier, naquele que pode ser considerado como o mais audacioso trabalho da sua carreira até aqui. O filme conta a história de um serial killer, desde quando tudo começou até o seu capitulo final.

Depois de escrever tantos roteiros que tinham no papel principal as mulheres como Medea ou para Bjorg em  Dançando no Escuro ou as ninfomaníacas, eis que Trier resolve focar no gênero masculino. O personagem central da história é um engenheiro que gostaria de ser arquiteto e se propõe a construir a sua casa. Mas afinal de contas, esta casa seria feita de que material?  O papel de Jack foi brilhantemente interpretado por Matt Dillon, que mesmo com CRASH, neste filme ele consegue imprimir um caráter que se por um lado se aproxima muito das situações limites que cada um de nós se depara no dia a dia, apenas a questão moral é que poderia evitar cair em tentação. No seu primeiro assassinato a vítima é interpretada por Uma Thurma, que inaugura a temporada de assassinatos de forma soberba, ela provoca, instiga e consegue aflorar o instinto assassino de Jack. Como todo “serial killer”, Jack tem aspirações de se tornar famoso, quem sabe ser reconhecido pela mídia como uma espécie de “Sr. Sofisticação”, reforçando esta aspiração na trilha sonora do filme a inserção da canção Fame de David Bowie. Mas o objetivo de Trier talvez nem fosse fazer um filme sobre “serial killer” e suas vítimas, mas sim de mostrar como o próprio assassino se tornou uma vítima, principalmente face a provocações enfrentadas, diante de certas atitudes estúpidas geradas pelas próprias vítimas. Depois de assistir este filme, praticamente será impossível você ir até a geladeira comer e beber alguma coisa e depois deitar e dormir, sem ao menos pensar um pouco sobre as situações mostradas na história. Se isso acontecer, pode ser que pela manhã, ao acordar, você repense algumas cenas e situações do filme, pois só assim se tem a clara percepção de que o filme mexeu com os seus sentimentos e cumpriu o seu papel. Trier tinha a intenção de inserir alguns clipes de outros filmes, mas optou pelos seus, como Medea, Ninfomaníaca, Melancolia e Anticristo.

A trilha sonora resgata clássicos de Bach na interpretação do pianista Glenn Gould, como também serve para situar a passagem do tempo com  As Quatro Estações de Vivaldi, mas pontuando a tragédia, também lembrou de Wagner com excertos de Tristão e Isolda. A canção tema homenageando o personagem principal Hit the Road Jack de Mayfield com Buster Poindexter.

Em resumo, como diria  Marques de Sade: “Não há outro inferno para o homem afora da estupidez ou da maldade de seus semelhantes”.