NUNCA AOS DOMINGOS (1960)

Publicado por admin em seg, 10/02/2017 - 14:49
Trilha sonora de Manos Hadjidakis para o filme Nunca aos Domingos

O cineasta Jules Dassin foi mais uma vítima do marcartismo, depois de ter sido denunciado pelo cineasta Edward Dmytryk. Na condição de perseguido no cinema americano, ele, que era casado com a atriz Melina Mercouri, buscou refúgio na Grécia, onde dirigiu produções importantes. O principal destaque vai para NUNCA AOS DOMINGOS, uma deliciosa comédia que mostra Melina Mercouri no papel de uma prostituta que se envolve com um escritor americano que tenta convencê-la a abandonar o ofício. Muitas semelhanças com MINHA QUERIDA DAMA e IRMA LA DOUCE. O tema principal carrega de maneira contagiante o clássico ritmo grego e acabou fazendo muito sucesso, servindo até mesmo de prefixo musical para programas de rádio. O palco das ações de NUNCA AOS DOMINGOS é a cidade portuária de Pireu, isso justifica muito bem a forma com que Hadjidakis estruturou seu trabalho, alegre e descontraído. Como a figura central da trama é a prostituta Ilia, interpretada soberbamente por Melina Mercouri, a música tenta captar um pouco do temperamento e estado de espírito da personagem. A música não deixa de conter aspectos profundamente reflexivos e que se coadunam muito bem com o jeito do personagem Homero, interpretado pelo próprio cineasta Jules Dassin, que adorava filosofar. Como não poderia deixar de ser, Manos Hadjidakis compôs uma trilha essencialmente nacionalista, com o resgate de toda a origem musical grega do período helênico. Aliás, a trilha de Hadjidakis reforça o aspecto de que a música grega acabou exercendo forte influência até mesmo na música da Sicilia, na Itália.

Manos Hadjidakis, como sempre, foi tremendamente influenciado pela música folclórica do seu país não perdendo a oportunidade de introduzir um pouco da experiência pessoal de pesquisas aprofundadas sobre as raízes da música tradicional grega. Outro aspecto que torna o trabalho de Hadjidakis extremamente especial está no fato de que ele também se utiliza de motivos musicais que remontam ao teatro com as tragédias gregas, tudo com objetivo de tornar pertinente com o gosto manifestado pela personagem Ilia.

A canção tema “To Pedia Tou Pirea” é cantada por Melina Mercouri e merecidamente ganhou o Óscar de melhor canção de 1961.

Manos Hadjidakis juntamente com Mikis Theodorakis são duas expressões fabulosas da música no cinema da Grécia, num período político de intensa turbulência, quando então muitos gregos tiveram que abandonar o país para não serem perseguidos. Manos Hadjidakis acabou se refugiando nos Estados Unidos, a partir de 1966, permanecendo até 1972.

De volta à Grécia, envolveu-se em vários projetos culturais, inclusive dirigindo uma emissora de Atenas que produzia programas especiais de músicas folclóricas.

Hadjidakis além do cinema também compôs para o teatro e tinha uma ativa participação na carreira concertista. Ele também foi o responsável por solidificar a formação de muitos expoentes da música no cinema, dentre eles o italiano Nicola Piovani.

 O compositor faleceu no dia 15 de Junho de 1994, aos 68 anos, privando o cinema de continuar contando com o seu enorme talento. Também perdeu muito a música grega, notadamente pelo trabalho magnífico que ele vinha desenvolvendo formando uma nova geração de músicos e contribuindo para firmar um conceito de música desenvolvido por ele e Theodorakis de resgate das raízes da música grega. Hadjidakis escreveu quatro livros sobre o seu trabalho experimental de música contemporânea, além de ter criado a Orquestra para os jovens talentos musicais da Grécia.

A música de Manos Hadjidakis reforça o conceito grego histórico das oito escalas, entre o tom maior exercendo o efeito da alegria, com o tom menor, como sendo o mais sombrio.